domingo, 26 de abril de 2020

Moro pulou do navio antes do 'Titanic afundar de vez', diz analista americana



Mariana Sanches - mariana_sanches - BBC News Brasil - Sergio Moro, agora ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, ao se demitir em frente às câmeras de TV, "pulou do navio antes que esse Titanic afunde de vez", avalia a cientista política americana Amy Erica Smith.
Smith, que é professora da Iowa State University, nos Estados Unidos, e especialista em política brasileira e movimentos evangélicos, diz acreditar que Moro esteja genuinamente preocupado com o Estado de Direito no Brasil ao afirmar que seu ex-chefe, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), está tentando politizar o comando da Polícia Federal (PF).
E que ele não descuidou de sua própria imagem, ao decidir não apenas pedir demissão, mas transformar a saída quase em uma denúncia das ações recentes de Bolsonaro.
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Em entrevista por telefone à BBC News Brasil, Smith questiona ainda a "urgência de Bolsonaro" em interferir na PF em um momento político já frágil, em meio à pandemia de coronavírus.
Autora de Religião e Democracia Brasileira: Mobilizando o Povo de Deus, lançado em 2019, ela afirma que os evangélicos seguem como a base do apoio popular do presidente, graças à agenda anti-aborto e às políticas de gênero e sexualidade que o governo defende.
"Mas, se todas as elites políticas abandonarem Bolsonaro, eles também o abandonarão. Não vão dar um cheque em branco para Bolsonaro", diz Smith.
Confira a seguir os principais trechos da entrevista:
BBC News Brasil - O que a demissão de Moro representa?
Amy Erica Smith - Isso mostra que ele está extremamente preocupado com o Estado de Direito. Uma das coisas que Moro simboliza é a importância do Estado de Direito no Brasil. Ele levou muitos políticos poderosos à Justiça por atos de corrupção, como Lula.
Ele é uma figura complicada e ambivalente, que representa a importância do combate à corrupção para muitas pessoas e, ao mesmo tempo, o risco potencial de que o combate à corrupção seja politizado. De alguma maneira, o próprio Moro ajudou a politizar a PF e a Justiça quando aceitou o cargo de ministro.
Quando ele vai à TV e diz que Bolsonaro está tentando politizar a PF, o que significa que o Estado de Direito está em perigo, isso mostra que ele está extremamente preocupado. Moro não é inocente. Sabe que ao fazer isso ele pode levar o Supremo Tribunal Federal e o Congresso a intervirem.
Então, vejo um ponto de inflexão na história brasileira em relação ao Estado de Direito, mas não sei dizer para qual lado o país irá: se Bolsonaro será contido pelas instituições nessas indicações políticas, o que as fortaleceria, ou se ele vai conseguir indicar os nomes que quiser para a PF e paralisar as investigações que quer eliminar.

BBC News Brasil - Por que essa crise acontece nesse momento, enquanto o Brasil tem o recorde de casos e mortes por covid-19 em um único dia?
Smith - Moro pode estar tentando pular do navio antes que esse Titanic afunde de vez, porque ele está vendo esses movimentos, ele faz menção à pandemia e à necessidade de isolamento em seu pronunciamento. Ele poderia ter saído em muitos outros momentos, como em dezembro de 2019, mas ele escolheu sair quando Bolsonaro está extremamente fraco.
A pandemia enfraqueceu o presidente, com desgastes por ter de demitir o (ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique) Mandetta, a má performance dele em coordenar ações contra a pandemia. Muitas pessoas percebem o barco afundando, e Moro decidiu que não quer mais ser associado a isso. Ele vai sair como um herói pra algumas pessoas.

BBC News Brasil - Ao justificar a saída do ministério, ele afirmou que não viu uma tentativa de interferência política como essa quando era juiz da operação Lava-Jato, mesmo com os casos graves de corrupção que envolviam o Partido dos Trabalhadores (PT), da então presidente Dilma Rousseff, e afirmou que um movimento de trocas de diretores ou delegados poderia ter acabado com a operação.

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