quarta-feira, 25 de março de 2020

Ala militar tenta controlar crise em meio a insatisfação com Bolsonaro e Guedes



Presidente Jair Bolsonaro durante comunicado sobre a crise do novo coronavírus (Covid-19). (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

IGOR GIELOW Folhapress -  - A insatisfação com as reações iniciais do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e do ministro da Economia, Paulo Guedes, levou a ala militar do governo a tentar aplicar um freio de arrumação na gestão da crise do coronavírus.
Desde o fatídico episódio em que o presidente estimulou e participou de atos contra outros Poderes, no dia 15, o que era uma preocupação ganhou ares de emergência.
O descompasso entre o esforço do Ministério da Saúde e a atitude pessoal do presidente repercutiu muito mal entre fardados com assento no governo e também junto às cúpulas da ativa.
O fato de que dois integrantes das Forças na Esplanada, o general da reserva Augusto Heleno (Segurança Institucional) e o almirante da ativa Bento Albuquerque (Minas e Energia), foram infectados pelo novo coronavírus ajudou a ampliar o desconforto.A situação recrudesceu ao longo da semana passada, com o incidente diplomático entre o filho presidencial Eduardo e o governo chinês, no qual o deputado endossou a teoria segundo a qual o Partido Comunista era culpado pelo alastramento do vírus.
A parceria estratégica entre Brasil e China é, em boa parte, uma obra de bastidor do vice-presidente, general da reserva Hamilton Mourão, que se empenhou pessoalmente em construir pontes com Pequim.
Com efeito, Bolsonaro ligou nesta terça para o líder da ditadura chinesa, Xi Jinping, para colocar panos quentes na disputa, que fora incentivada pelo chanceler Ernesto Araújo, protegido de Eduardo.
O filho e o ministro são expoentes do setor dito olavista do governo, embora até mesmo o guru da turma, o escritor Olavo de Carvalho, parece ter abandonado a fé em Bolsonaro em postagem recente.
Para um oficial-general da ativa, isso é boa notícia, até porque Olavo agora virou negacionista da epidemia do coronavírus. A própria presença de Araújo na ligação a Xi ensejou um enquadramento.
A ala militar não age em ordem unida, mas hoje tem seu eixo na atuação renovada de uma trinca de generais egressos do Comando Militar do Leste e do trabalho na Olimpíada-2016: Fernando Azevedo (Defesa), Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) e Walter Braga Netto (Casa Civil).
Coube ao último, novato no governo, o papel mais evidente na reorganização do trabalho palaciano. Ele passou nesta semana a ser o responsável por elencar as necessidades que os governadores passaram a apresentar na crise.
Outras questões são mais sutis. Após seguidas frases minimizando a emergência sanitária, Bolsonaro passou adotar um tom mais contido ao falar do coronavírus --ou ao menos tentou. Nesta terça (24), recuou de forçar competência sobre fechamento de estradas.
Foi aconselhado pelos militares a baixar o tom na sua conflagração com os governadores, em especial João Doria (PSDB-SP) e Wilson Witzel (PSC-RJ), o que de fato ocorreu a partir da segunda (23).
Um bom teste ocorrerá na manhã desta quarta (25), quando eles estarão frente a frente, mais os chefes estaduais de Minas e Espírito Santo, em videoconferência sobre o coronavírus.
O protagonismo de Braga Netto também serve ao propósito do presidente de tentar tirar o holofote de Luiz Henrique Mandetta (Saúde), que vinha destoando do chefe no tratamento sério da crise.
A ordem geral, ouvida entre integrantes do governo e também da ativa militar, é buscar estabilizar uma situação que já é bem ruim.
O vetor econômico preocupa especialmente. Paulo Guedes, antes visto como esteio do governo, passou a receber críticas devido ao que foi chamado de insensibilidade no tratamento dos efeitos da pandemia em sua área.
A gota d´água foi a edição da medida provisória visando aliviar a situação das empresas, que incluía cláusula permitindo dispensas por quatro meses sem salário.
A área militar foi avisada por ministros do Supremo Tribunal Federal que tal medida constituía um absurdo que seria facilmente questionável na corte.
Não passou em branco no palácio a declaração do presidente do Supremo, Dias Toffoli, que ao jornal Folha de S.Paulo criticou duramente a ideia, por fim abandonada por Bolsonaro.
Como a Folha de S.Paulo revelou na semana passada, a boa vontade de Toffoli com o governo é passado após os protestos pedindo pelo fechamento da sua corte e do Congresso.
A pressão militar contra Guedes, que já havia surgido em outros momentos em que o ministro escorregou, como quando troçou da ida de domésticas à Disney, não significa que haja opções à mesa.

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