terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

40 ANOS DE PT, O QUE COMEMORAR?



Josué Cândido da Silva*
Em 40 anos de história o PT passou por grandes mudanças. Mudar faz parte da dialética da história, a questão é avaliar em que sentido apontam essas mudanças e como ainda podemos reconhecer no PT de hoje algo do que chamamos de política de esquerda, ou como um projeto de sociedade, algo de socialismo.
 Quando comecei a militar no PT em 1986, a discussão ainda era sobre os rumos da revolução socialista: uma parte mais vanguardista defendia a luta armada, outro grupo majoritário, defendia a luta de massas, tendo como inspiração a proposta de construção do socialismo de Nicarágua e El Salvador. Pouco tempo depois ruiu o bloco socialista, os EUA se tornaram o xerife mundial e a revolução desapareceu do horizonte. 20 anos depois de fundado, o PT se colocava como um partido social-democrata, a favor da transferência de renda via Estado, com universalização do sistema de saúde, melhorias em educação (erradicação do analfabetismo que ainda era elevadíssimo) e combate à miséria. 
Com o governo Lula fizemos o chamado governo de coalizão em que como disse o Lula: "pobres, ricos, todos ganharam". Do ponto de vista da lógica capitalista, propúnhamos um modelo de desenvolvimento à la Vargas, nacionalista, quando muito um capitalismo com forte participação estatal. A elite acostumada ao rentismo se cansou desse modelo, a classe-média com expectativas inflacionadas, não estava disposta a esperar por mais 20 anos de PT e fomos depostos do poder. A coalizão acabou. Sem revolução e sem coalizão ficamos perdidos. 
Não temos mais estratégia macro-econômica, nem política. O governo do PT da Bahia é um belo exemplo do que nos tornamos. O Congresso levou quase um ano para aprovar a reforma da previdência, graças à ferrenha oposição da esquerda, em uma semana Rui Costa aprovou na Bahia. Mais dura e com regras de transição mais terríveis que o modelo neofascista de Bolsonaro. 40 anos depois o PT é um partido que poderíamos chamar de "liberal" no sentido da política dos EUA. 
Como os Democratas de lá, defendemos os direitos das minorias, a igualdade de gênero, o combate ao racismo, fim da censura, ou seja, as chamadas "liberdades democráticas", mas na economia e na gestão pública, não estamos muito a frente do que propõe um Rodrigo Maia, por exemplo. Há décadas não realizamos concursos públicos e terceirizamos o serviço público até o limite. Nossa polícia mata jovens negros tanto quanto a de qualquer outro estado. Um petista de 30 anos atrás não teria dúvida em chamar nossas políticas de hoje de neoliberais. E como os Democratas de lá, nós não falamos mais aos excluídos e marginalizados, não dialogamos com o precariado, estamos longe de nos conectarmos com a juventude. 
Torcemos o nariz para os neo pentecostais que diariamente estão nas vielas das periferias, onde nossos carros não entram. Já há algum tempo nos tornamos um partido da ordem. Isso não é algo ruim em si, pois precisamos mostrar na prática a factibilidade do nosso projeto. O problema é quando abandonamos nossas utopias e nosso único diferencial é que administramos o capitalismo melhor que os próprios capitalistas. Se seguirmos por aí, realmente não haverá nada o que comemorar. 
Como já disse o poeta: "sem os sonhos e as utopias, a vida é um simples caminhar para morte".
*Professor universitário. UESC - Ilhéus - Bahia

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