segunda-feira, 18 de março de 2019

Como evitar ataques a escolas? As causas, a psicopatia e a maldade.



Como não poderia deixar de ser, o assunto da semana, desde quarta-feira, é o ataque realizado por dois assassinos contra alunos, professores e funcionários de uma escola em Suzano.
É difícil imaginar uma situação mais terrível do que essa. Morreram crianças, deixando pais no pior drama pelo qual poderiam passar em suas vidas. Morreram educadores, que deixaram não só os alunos, mas seus próprios filhos.
Imagine, então, como devem estar os familiares dos assassinos, sabendo que seus entes cometeram tamanha barbárie? E a família que teve ainda o tio assassinado pelo sobrinho, causando devastação ainda mais profunda?
É uma mistura de situações, mas somando sempre o pior do pior do pior.
Como não poderia deixar de ser, a opinião pública muito falou sobre as causas e eventuais soluções para evitar situações semelhantes no futuro.
Neste texto faremos uma reflexão inicial diante das circunstâncias já conhecidas, sempre sujeitas a aprimoramento após o conhecimento de fatos novos, observando a postura dos assassinos e da própria sociedade diante do crime.
Acho praticamente impossível listar todas as reclamações ou soluções que li ou que me falaram sobre como evitar novos massacres do tipo. Mas vou listar, abaixo, as principais:
1) Falta segurança no ambiente escolar
Muita gente reclamou, inclusive no velório das vítimas, de que as escolas estão inseguras, de que os alunos vão para a aula sem saber se vão voltar. Isso é verdade, valendo para escola ou qualquer outro ambiente brasileiros, mas, ordinariamente, se espera que uma escola seja um local de tiroteio? Qual seria a medida a ser tomada pela escola, pela prefeitura, polícia etc. nesse sentido? Não há, simplesmente.

2) Proibir armas de fogo
Bem, hoje em dia é mais fácil achar um pote de ouro no final do arco íris do que se ter legalmente uma arma. O revólver utilizado pelo assassino mais jovem era obviamente ilegal, com a numeração raspada. Logo, a proibição é irrelevante para quem quer praticar crimes. As estatísticas de 70 mil homicídios anuais do Brasil não permitem mentir.
Nesse caso, ainda, apesar de na escola ter havido 7 vítimas fatais e mais uma dezena de feridos, sabemos que foram deflagrados apenas 5 tiros, incluindo os que mataram os próprios assassinos. Portanto, embora eu não tenha conhecimento dos laudos, há de se supor que algumas das vítimas foram mortas de outra forma terrível, a machadadas e flechadas.
Qualquer tipo de proibição, a esse respeito, é absolutamente inócua.

3) Permitir e estimular a posse de armas de fogo
Essa outra solução, se não é precisamente uma solução, parece um pouco mais sensata. Um ambiente com pessoas portando armas de fogo pode não impedir que alguém queira entrar para cometer um massacre, mas certamente trará uma proteção inicial, de índole psicológica, especialmente contra assaltantes e outros bandidos, que certamente pensariam duas vezes antes de tentar cometer o crime. É evidente que preferem um ambiente indefeso.
Mas, imaginando que os assassinos levem adiante o plano, o simples fato de haver armas não impede o ataque, nem mesmo possíveis mortes, mas tende a diminuir o número de vítimas. Os ataques nos EUA em zonas com armas e zonas sem armas transmitem números muito claros a esse respeito.
No caso do ataque em Suzano, sabe-se que os assassinos tinham um pacto suicida. Sabe-se, também, que um policial à paisana chegou ao local em pouco tempo. Teria sido a presença desse policial determinante para que o suicídio se consumasse de maneira mais rápida? Caso contrário, teriam os assassinos tentado fazer outras vítimas, por terem mais tempo?
O mais terrível é justamente o fato de que todas as vítimas estavam indefesas, não só pela surpresa do ataque, mas por não terem nenhum instrumento ou meio para se defender ou parar os ofensores.
A velha máxima "A única coisa que impede um homem mau com uma arma é um homem bom com uma arma" é verdadeira e pode até diminuir um ataque, mas, provavelmente, não poderá evitá-lo, nem evitar que haja vítimas.
Ou seja, pode até evitar um dano maior, mas não impede que aconteça.

4) Proibir videogames violentos
Consta que os dois atiradores gostavam de jogos eletrônicos de tiro. Admito, eu também gosto. E, sendo sincero, não tenho um amigo sequer que não goste. "Ah, mas ninguém sabe o que as imagens causam na psique de cada um". Sim, é verdade. Mas, isso é em razão da imagem ou da maldade? Voltaremos a esse ponto.

5) Evitar o bullying
Parece impossível evitar o bullying diante do relacionamento pessoal, especialmente para crianças, ou mesmo delimitar o que, no caso concreto, é bullying e o que não é. No entanto, o assassino mais jovem, que parecia ter maior domínio do fato, na noite anterior ao crime, foi servido no jantar em casa pelo seu avô, um senhor idoso.
É difícil imaginar um trato mais gentil do que esse, beirando o mimo, considerando que o sujeito já tinha 17 anos.
Ademais, não parece ter surgido, ao menos por enquanto, indicações claras de que os assassinos tinham incômodo específico com algum tipo de provocação. Ao que tudo indica, era o contrário, o desinteresse pelo convívio com os colegas, uma espécie de "seletividade" relatada pela atendente de uma lan house frequentada pelos assassinos.

6) Falta de atenção dos pais e da família
Apesar de terem sido vizinhos, os assassinos tinham condições familiares bastante diversas, ao que tudo indica. Em comum, pelo que dizem, eram apenas pessoas quietas.
Em conversa com um amigo que é pai, hoje pela manhã, ele me dizia que a família tem a "obrigação" de atentar para os filhos, netos etc., para evitar que essas coisas aconteçam.

Evitar como? Quem poderia estar mais surpreso com os fatos do que os familiares desses assassinos?
Ora, o mais velho trabalhava como jardineiro. O mais jovem, apesar de ter abandonado a escola antes do tempo, trabalhava em um carrinho de lanches. Jogavam e iam ao shopping juntos. Há como se imaginar uma vida mais pacata e comum?

De que os pais poderiam desconfiar? E, ainda que desconfiassem, o que poderiam juridicamente fazer a respeito? As investigações apontam, por exemplo, que eles fizeram pesquisas na internet a respeito de outros atentados passados, em especial o de Columbine, nos EUA. Ora, essas páginas são acessadas milhares de vezes ao dia no mundo todo. Eu mesmo o fiz, pela memória que este novo caso trouxe.
Como se chegar ao delegado para contar "estou preocupado, pois meu filho acessou a Wikipedia buscando a história de Columbine"? Qual a relevância jurídica disso?
O que poderiam os pais e familiares fazerem para evitar? Salvo casos muito raros, nada, aparentemente.

7) Falta de educação do povo
Uma das mais corriqueiras "desculpas" que as pessoas dão para os mais diversos crimes é a "falta de escola".
Chega até a ser irônico, senão beirando ao sádico, invocar uma besteira dessas nesse momento, mas, só para comentar, os dois assassinos estudaram naquela mesma escola, que possuía notas significativamente boas para a região.

8) Falta de "oportunidades"
Ao que tudo indica, os assassinos vinham de famílias pobres. Isso sempre levanta a questão do dinheiro e da falta de oportunidades, como se ser pobre fosse uma condição para ser criminoso. A Lava Jato está aí desmentindo essa tese há pelo menos meia década. O Mensalão já o fez há quase quinze anos, apenas para citar os exemplos mais emblemáticos.
É uma verdadeira insanidade se alegar esse tipo de questão aqui ou em qualquer outro crime.
É, porém, a coisa mais comum em meio a um mundo cada vez mais recheado de materialismo e onde somente o material importa.
Recomendo, a esse respeito, o ótimo livro "Criança 44", de Tom Rob Smith, ambientado na União Soviética e que possui inspiração em alguns fatos reais. A relação do livro com essa hipótese é o fato de que, para o governo soviético, aquele era um Estado onde "não havia crime".
Isso porque, ao menos em tese, se todos são iguais e têm iguais oportunidades, por que alguém iria querer cometer um crime contra outra pessoa? Por isso, se perseguia até quem investigava os crimes.
Repare no extremo materialismo que permeia essa situação que, embora descrita em livro de ficção, foi e é essencialmente real. O motivo para qualquer crime, para o Estado Soviético, só poderia partir de uma situação que envolvesse alguém querer o que é do outro, das diferenças de classe (que supostamente não haviam por lá), do capitalismo (idem).
E essa mentalidade é muito presente hoje entre nós, especialmente nos meios universitários e mídia.
O livro, aliás, foi convertido em filme alguns anos atrás, sob o nome de "Crimes Ocultos". Mas, ainda assim recomendo enfaticamente o livro ao filme.

9) Culpa deste governo, do governo anterior ou de qualquer outro governo
É quase uma "menção honrosa", pois sempre um lado tenta jogar qualquer coisa para o outro, mesmo que não tenha qualquer relação.
Não há como se negar que alguns governos promoveram abertamente a imoralidade e a destruição em graus que beiram o impensável, levando ao ápice as ideias da Escola de Frankfurt. Porém, isso não tem relação com esse caso.
Finalizados os argumentos principais que ouvi, me confesso ao leitor: tenho um entendimento pouco esperançoso, ainda que realista.
A culpa pelos assassinatos é dos... assassinos, de forma pura e simples. E parece virtualmente impossível evitar situações dramáticas e terríveis como as de Suzano.
O mundo materialista que citei acima excluiu da percepção geral o óbvio: as pessoas são naturalmente más e há pessoas que são especialmente mais más do que as outras, ainda que isso se potencialize por fatores externos. Ponto final.
Há pessoas que têm o desejo de praticar o mal para os outros. Os assassinos de Suzano são maus e covardes. Simples assim. Na hipótese de terem sobrevivido, dificilmente se arrependeriam de seus atos.
Aliás, se formos observar os exemplos dos Santos, veremos que assim o são, por muitas vezes, justamente por tentar combater o mal dentro de si.
Santo Agostinho, o grande filósofo da primeira fase do cristianismo, se reconhecia profundamente mau. Era algo como um "playboy" de seu tempo. Tinha um filho para o qual não dava muita bola e chegou até a abandonar a própria mãe em uma ilha, pois ela insistia em pedir sua conversão. Aquela hoje conhecida por Santa Mônica vivia lhe "enchendo o saco".
E ele passou a compreender esse mal e começou a rezar pedindo a Deus a conversão. "Mas não para hoje". "Me converta amanhã!", desejava ele.
Chega a ser quase cômico esse ponto, mas não menos verdadeiro na percepção de que ele se reconhece mau, mas resiste a deixar de ser mau para passar a ser bom.
São Paulo, que antes de Santo era um verdadeiro gênio, admitiu em uma de suas cartas: "não faço o bem que quero, mas faço o mal que não quero".
Claro que até a maldade possui gradações, do mais grave para o menos grave.
Por isso, voltando a Suzano, ambos os assassinos aparentam possuir todos os elementos de psicopatia, especialmente o mais jovem. Psicopatas não são doentes mentais, mas possuem um desvio de afeição e ética muito profundos. Se não são doentes, são intratáveis e incuráveis.
Mas, enquanto não praticam crimes, o que se fazer com os psicopatas? Como impedi-los? Psicopatas também não têm essa marca escrita em suas testas e, mesmo que tivessem, nada adiantaria juridicamente enquanto não praticassem crimes.
Psicopatas são, na maior parte dos casos, sedutores, manipuladores e convincentes. A ponto de, no pacto demoníaco de Suzano, o mais velho aceitar ser morto pelo mais jovem, confiante de que esse depois se suicidaria, cumprindo o acordo.
A esse respeito, chega a chamar a atenção o fato de que os dois assassinos, um com 17 e outro com 25, eram grandes amigos desde a infância.
Ora, há uma diferença de 8 anos entre eles, portanto. Não é incomum um homem de 23 anos ter um amigo de 30. Nem um de 58 ser amigo de um de 50. Mas, na infância, 8 anos é uma distância absolutamente gigantesca.
É só pensar que quando o mais jovem tinha 6 anos o mais velho tinha 14. Quando tinha 10, o outro já tinha 18.
Haver uma amizade desse tipo, da forma como eles aparentemente tinham, por si só, já é muito surpreendente. Mas, quando isso acontece, é esperável que o mais velho tenha influência sobre o mais novo. Nesse caso, é exatamente o contrário, o que sugere o perfil sedutor a que me referi, se sobrepondo ao perfil provavelmente retraído do mais velho.
Enfim, diante desses casos, o que as pessoas querem, afinal, é algo que se resume a pedir aos criminosos que não cometam crimes. Querem dizer para os psicopatas que não sejam psicopatas, porque isso é ruim.
Realmente, evitar ataques como o de Suzano é, no meu entender, um problema que provavelmente não tem solução.
Porém, isso não significa que devemos ter uma postura infantil como a das pessoas que não levam em conta o elemento primordial, que é a maldade pura e simples. Nem devemos escorar a responsabilidade dos assassinos fora deles.
Como dito, não tenho uma solução, mas se ela existe, certamente começa por perceber a responsabilidade das pessoas por seus atos, já que absolutamente nada há sem o essencial: a ação humana.

Por Bruno Barchi Muniz - Sócio advogado no escritório Losinskas, Barchi Muniz Advogados Associados

Losinskas, Barchi Muniz Advogados AssociadosPRO

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