sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Cientistas alertam para besouro que pode entrar no País e dizimar coqueirais e dendezeiros

Foto: Paul Rugman Jones
Pesquisadores da Embrapa Tabuleiros Costeiros (SE) alertam para a possível entrada no Brasil do bicudo-vermelho, considerado uma das piores pragas que afetam as palmáceas e que, no País, pode atingir drasticamente plantações de coqueiro e dendê, inclusive as palmeiras ornamentais. Os cientistas recomendam atenção e monitoramento constante, além da aplicação de técnicas de manejo integrado de pragas (MIP) como, por exemplo, o uso de nematoides entomopatogênicos (NEPs) que parasitam os insetos.
Também conhecido como bicudo-vermelho-das-palmeiras, esse besouro pode voar grandes distâncias e foi detectado na Indonésia em 1972. Em menos de 40 anos, a praga se espalhou no norte da África e na Europa mediterrânea. Em 2009, foi detectada na Califórnia, oeste dos Estados Unidos, e a partir de 2011, nas ilhas caribenhas de Aruba e Curaçao com potencial de chegar à América do Sul.Por esse motivo, pesquisadores brasileiros e colombianos lançam o alerta aos produtores, pois ao detectar a presença do bicudo ou escaravelho vermelho, denominado cientificamente Rhynchophorus ferrugineus (Coleoptera: Curculionidae), é recomendável entrar em contato o mais rápido possível com as superintendências do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) em cada estado, cujos contatos podem ser encontrados na internet.
“Hoje, com a revisão da lista de pragas quarentenárias, esse inseto está sendo categorizado oficialmente como praga quarentenária ausente o que permite a adoção de medidas fitossanitárias nos pontos de fronteira para produtos hospedeiros da praga”, informa Paulo Parizzi, coordenador-geral de Proteção de Plantas do Departamento de Sanidade Vegetal, vinculado à Secretaria de Defesa Agropecuária do Mapa.
A praga pode afetar 28 gêneros de palmáceas, que vão desde as ornamentais como a Phoenix canariensis, até as palmeiras comerciais de importância agrícola como coqueiro e dendê, que também compõe a paisagem do País, o que pode afetar até o mercado de turismo.
Em face dessa ameaça, pesquisadores da Embrapa unem esforços em parceria com os pesquisadores colombianos da Corporación Colombiana de Investigación Agropecuaria (Agrosavia), com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal), em trabalhos de pesquisa de controle e combate à praga.
“A praga já chegou às Antilhas, Aruba e Curaçao, cerca de 50 quilômetros da costa venezuelana. Devido à grande capacidade de dispersão, ela pode invadir países com grandes extensões de palmáceas comerciais como Brasil, Colômbia e Venezuela. Os estados do Pará e Roraima podem ser a porta de entrada no Brasil”, afirma o pesquisador colombiano Juan Pablo Molina Acevedo, da Agrosavia, especialista na praga, lotado na Unidade de Execução de Pesquisa e Desenvolvimento (UEP) em Rio Largo, Alagoas, vinculada à Embrapa Tabuleiros Costeiros, sediada em Aracaju.
“Estamos alertas criando estratégias de controle e monitoramento para evitar que a agricultura brasileira e a colombiana, que estão expandindo suas áreas de cultivo de coco e dendê, sejam afetadas”, complementa.
Como estratégia preventiva, pesquisadores da Embrapa Tabuleiros Costeiros e Agrosavia Colômbia publicaram um folder de alerta fitossanitário sobre o risco do bicudo-vermelho para o Brasil e a Colômbia, com objetivo de instruir os produtores caso detectem a praga em lavouras de coqueiro e dendê.
A praga ganhou tanta relevância a ponto de ser organizado o Encontro Mundial sobre o Bicudo-Vermelho, que acontece em Bari, Itália, entre 23 e 25 de outubro 2108, quando serão discutidas as potenciais alternativas para contê-la. 

Extermínio das palmáceas na Espanha
Molina conta que em Múrcia, Espanha, o bicudo-vermelho chegou em 2003 e em 2007 todas as palmáceas, a maioria ornamentais, foram exterminadas. “O bicudo-vermelho e seus ovos podem chegar em mudas vindas de países onde já existe a praga. A América do Sul tem todas as condições de clima, umidade e alta temperatura para ela se desenvolver rapidamente”, alerta. “O inseto ataca culturas permanentes. Isso é muito mais grave do que atacar culturas semestrais.”

“O bicudo-vermelho é altamente prolífico. Uma única fêmea pode colocar de 200 a 400 ovos e desenvolver quatro ou cinco ciclos dentro do tronco da planta, até causar a sua morte. Após sair da planta hospedeira, os novos adultos podem ’colonizar‘ outras e exterminar uma plantação inteira”, afirma o pesquisador da Embrapa Aldomario Negrisoli, que desenvolve trabalhos na UEP de Rio Largo. “O bicudo-vermelho tem potencial de ser muito mais danoso do que outros besouros que atacam as plantações no País,” frisa.

Ecologia química e controle biológico contra a praga
“Se o bicudo-vermelho atingir essas culturas poderá causar graves danos e um grande impacto na agricultura brasileira. Portanto, estratégias de manejo devem ser estabelecidas. A ecologia química, por meio da utilização de feromônios e substâncias atraentes e repelentes, pode fornecer ferramentas para auxiliar esse manejo, a exemplo de algumas tecnologias que já vêm sendo aplicadas no controle de outros insetos-praga existentes no Brasil, como o besouro Rhynchophorus palmarum", diz Alessandro Riffel, que desenvolve pesquisas com ecologia química na Embrapa Tabuleiros Costeiros.
De acordo com os pesquisadores, uma alternativa eficiente para o controle de bicudos é o uso de nematoides entomopatogênicos (NEPs) que parasitam os insetos. No estudo de alternativas de controle do besouro Rhynchophorus palmarum, conhecido como bicudo-negro, já conhecido pelos produtores de coco no Brasil e na Colômbia, diversos testes preliminares realizados em laboratório demonstram a potencialidade desses agentes de controle biológico.
Os NEPs conseguem causar a mortalidade de até 80% das larvas, pupas e adultos dos insetos devido à capacidade em se deslocar, localizar a larva da praga e parasitá-la eficientemente no interior das palmeiras.
Estudos realizados no exterior com uso associado de NEPs com quitosano indicaram alta eficácia curativa em tratamentos preventivos contra o bicudo-vermelho em palmeiras ornamentais. Existe um produto comercializado fora do Brasil para o controle dessa praga, cujo ingrediente ativo é um isolado do nematoide da espécie Steinernema carpocapsae. Na Europa e em Israel esses nematoides já estão sendo utilizados, além de fungos do gênero Beauveria, para o controle da praga.

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